AS RELAÇÕES INTERTEXTUAIS E PARODÍSTICAS ENTRE OS SERTÕES E O APOCALIPSE
Abstract
Esse artigo, resultado de nossa pesquisa de iniciação científica, examina as relações intertextuais e parodísticas entre Os Sertões, de Euclides da Cunha, e o Apocalipse, de João, uma hipótese originalmente formulada pela crítica literária Walnice Nogueira Galvão (2009). Por meio do método das passagens paralelas, constatamos que, na representação euclidiana do Arraial de Canudos, foram empregadas, de fato, imagens invertidas do retrato bíblico da nova Jerusalém: a cidade santa, quadrangular, simétrica, feita de ouro e pedras preciosas, converte-se no arraial de barro, construído irracionalmente, a esmo; a igreja, inexistente, aparece informe, tosca; o rio de água viva dá lugar ao Vaza Barris barrento, seco; a árvore da vida é trocada pela natureza morta; e, ao invés da graça divina, a maldição é imprecada. De acordo com a teoria da paródia de Linda Hutcheon (1985), estudiosa que, a partir do caráter duplo da raiz etimológica do vocábulo – contracanto ou canto paralelo –, concebeu uma definição de paródia como repetição com diferença, capaz de contemplar práticas modernas que não necessariamente lançam mão do ridículo, concluímos que há, realmente, uma relação parodística entre Os Sertões e o Apocalipse. Além disso, com base nos estudos de Gérard Genette (2006), identificamos ocorrências de intertextualidade entre as obras, especialmente por meio de alusões.